"SIGNIFICADOS DO BRINCAR"

AFLALO, Cecília,


O Falar sobre o brincar parece uma coisa fácil, no entanto, não é bem assim. Muitos autores, filósofos, psicólogos, antropólogos, educadores, artistas há muito tempo e de formas bem diferentes, vêm explicando, com muita sabedoria, o que brincar têm significado ao longo da história do homem.

Além disso, falar sobre este tema é falar sobre algo que todo mundo conhece, e conhece muito bem. Seja criança ou adulto, todos nós já brincamos um dia e com certeza, mesmo que seja lá no fundo da memória, não há quem não tenha alguma lembrança das brincadeiras da sua infância. As pessoas podem não conseguir explicar em palavras, mas sabem muito bem o que é brincar.

"Brincar é divertido, é muito gostoso"
Lia, 11 anos.



Então, porque escrever mais sobre este assunto?
Porque enquanto nascerem crianças no mundo e enquanto estas crianças vierem a se tornar os adultos responsáveis pelos rumos deste mundo haverá sempre o que se dizer sobre o brincar e, mais alguma coisa a acrescentar, no sentido de se tentar fazer com que eles se dêem conta da dimensão, da importância do significado de algo que todos conhecem tão bem mas que, de maneira geral, tem sido colocado junto às coisas supérfluas da vida atual.

O Brincar Sensação

Brinquedos, jogos e brincadeiras - através deles, crianças e adultos têm compartilhado sensações, emoções e sentimentos reais. No brincar, corpo, mente e alma se manifestam espontaneamente e, num misto de fantasia e realidade, cada um se envolve e vivencia cada experiência de maneira única, exclusiva e intransferível.

Brincar é não perceber o tempo passar e, se isso ocorre, é porque ora sentimos que ele passa muito rápido e ora parece que ele não passa nunca!

Brincar é sacudir um chocalho para se distrair com seu barulho, é o impulso de correr à exaustão para conseguir alcançar o amigo no pega-pega, é a sensação de girar num corrupio até cair, é o encantamento e o devaneio de ficar por longo tempo admirando as surpresas dos movimentos de uma geringonça, é, também, o frio que dá na barriga lá em cima de uma montanha russa.

Brincar é sentir o prazer das sensações extremas, é tentar conhecer os próprios limites, é sair por instantes da realidade, é a entrega aos sentidos, é elevar os pensamentos até o nada, é igualar a alma às dos poetas:

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não te pergunto se trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca ter te visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança.

Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.

Brinca! Pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.

Fernando Pessoa


O Brincar Imitação

Rituais religiosos, cenas da vida social e mesmo da vida econômica, comportamentos e gestos do mundo adulto, do passado ou do presente, há muito vêm sendo reproduzidos e simbolizados nos brinquedos e nas brincadeiras infantis.
As crianças gostam de imitar o que as "pessoas grandes" lhes apresentam e, engana-se aquele que pensar que só imitam aquilo que é aparente. Através da imaginação e da fantasia, brincando, elas sentem prazer de se fazer parecer com os adultos e, aos poucos, hábitos, comportamentos e valores são verdadeiramente incorporados.
Embora, ao que parece, as brincadeiras de faz-de-conta, brinquedos e jogos que representam objetos ou cenas da realidade dos adultos sempre tenham existido, elas predominam atualmente. Esta é a forma que as crianças encontram de participar, à sua maneira, das atividades destinadas exclusivamente aos adultos e às quais elas não têm acesso.
É, então, nas brincadeiras de faz-de-conta que as crianças encontram a possibilidade de representar o mundo de forma mais integrada. Criam uma realidade fictícia, imaginam o que bem entendem, podem se aproximar ou se afastar da imagem que têm dos adultos e, a seu modo, imitá-los. Entre os amigos trocam de papéis: são pai, mãe, marido, mulher, médica, boiadeiro ou herói.
Nos tempos de hoje, a criança se vê forçada a separar o seu "Ser Brincante" entre o brincar que lhe é concretamente pulsante e presente, e a necessidade de se preparar para o trabalho da vida adulta que é futuro.
Em outros tempos ou em sociedades diferentes, o brincar fantasia imitativo das crianças se transforma de maneira mais natural em vida real, isto porque as crianças convivem de forma mais participativa na sociedade que não se estrutura de forma tão fragmentada. Ao menino índio, por exemplo, é dado um arco menor e mais simples para que ele possa, desde cedo, caçar pequenos animais. As crianças aprendem e apreendem tudo o que elas precisam e irão precisar no futuro, na convivência e na proximidade com o adulto, tanto no trabalho como no lazer.

...Se o objetivo é a coleta de mel, acampa-se nas proximidades da árvore a ser derrubada. Duas ou mais horas se passam até que tenham concluído o trabalho, fartado-se de mel e enchido os vasilhames que serão levados à aldeia. Nesse espaço de tempo, as crianças não param de brincar. Um ou outro sai à procura de bambu e volta com uma pequena flauta, que passa de mão em mão. Se o som é apreciado, logo se inicia uma sessão de música. Os homens interrompem o trabalho para também participar. Quando, finalmente, tem início a retirada do mel, todos se aproximam para receber sua parte...
Carmen Junqueira ," Os Cinta Larga",1985

O Brincar Submissão

"Não vale bater na bola com a mão, só com o pé."
"O bispo se movimenta pelo tabuleiro somente na diagonal."
"Aquele que for pego, tem que ficar parado sem se mexer, vira estátua."
"Quem chegar correndo, ao fim da pista e sem derrubar nenhum obstáculo, é o vencedor."


O brincar também se manifesta no jogo que tem como uma de suas principais e interessantes características o fato de que, quem joga, aceita se submeter, voluntariamente, às regras estritamente estabelecidas, seja por satisfação e vontade de participar, seja por obstinação de vencer um desafio ou uma meta.
Ora às bem simples, ora às mais difíceis ou complexas, a submissão às regras torna os participantes iguais, uns perante aos outros, com as mesmas chances de ganhar ou perder. Isto se vê não apenas nos jogos de cooperação onde todos partem em busca de um objetivo comum, mas também nos jogos de competição onde apenas alguns conseguem vencer por mais sorte ou melhor desempenho.
Riso, raiva, expectativa, surpresa, desespero, choro, euforia são sentimentos que acompanham os jogadores e aqueles que, de fora mas de espontânea vontade, estão envolvidos torcendo, sofrendo ou vibrando.
Brincar, neste caso, é, estranhamente, renunciar à escolha e, ao mesmo tempo escolher submeter-se por inteiro, mesmo que, às vezes, isto possa implicar no descontrole absoluto da emoção ou no alcance dos limites da resistência física e do cansaço mental.

O Brincar Liberdade

Se estiver bom a gente quer continuar a brincar, se estiver ruim a gente simplesmente sai da brincadeira, dá um click. Cada um decide quando está brincando e o momento em que quer sair da brincadeira. É assim que acontece com as crianças bem pequenas, com as que desejam imitar os adultos, com as que querem representar as coisas do mundo do qual elas não participam. É assim quando se pula amarelinha ou se controla o mouse num jogo de computador. É assim, até para quem decide entrar num jogo e perder o tempo todo.
O contato direto com o prazer faz com que as pessoas gostem de brincar. Ele nos faz viver plenamente o que somos, nos faz revelar como somos, sem mesmo nos darmos conta disso. E é, por isso mesmo, que há pessoas que não gostam de brincar ou jogar.
Brincar se iguala ao sentimento de liberdade plena de pensar, de agir, de sentir, de criar e de se expressar. Brincar é a liberdade total de criar fantasias, de imaginar situações fictícias, de imitar ou transformar a realidade de forma descompromissada.

"Brincar é para mim estar com os amigos fazendo qualquer coisa que se quer sem que ninguém julgue ninguém pelos atos ou pelos fatos. Gosto de brincar porque eu fico feliz e deixo os outros felizes por estarem comigo."

Pedro, 20 anos.


Por outro lado o mundo dos brinquedos que os adultos preparam e impõem para as crianças, sob sua ótica, nem sempre corresponde ao que elas percebem e vêem no mundo. Os adultos muitas vezes não conseguem entender o que as crianças estão dizendo ao abandonar este ou aquele brinquedo ou ao destruí-lo tirando-lhe uma perna, um olho ou as rodas, tentando trazê-lo mais próximo de si.

Nós, adultos, por necessidades e inseguranças próprias, por medo de futuros fracassos ou insucessos de nossos filhos, temos, contraditoriamente, afastado precocemente as crianças daquilo que elas mais precisam para crescerem saudáveis de corpo e alma. Esquecemo-nos que fomos crianças um dia, e por isso, não conseguimos nem mais brincar, nem reconhecer que as crianças, verdadeiramente, preferem e precisam brincar muito, muito, muito, para assumirem de forma plena a própria vida.

"Brincar era transpirar alegria. Risadas esbaforidas e incontroláveis. Antes era muito mais fácil ser feliz; a felicidade era sinônimo de brincadeira. Mas com o tempo, brincar mudou o seu significado, talvez porque deixamos de brincar com a mesma frequência., ou mesmo porque agora brincar se resume a procurar o que nos falta no dia a dia. Brincamos agora para recordar o que era brincar antes. Tentamos retomar a alegria pura e perfeita que sentimos alguma vez."

Jimena, 17 anos


Brincar sempre para experimentar e um dia ir buscar. Brincar para entrar em contato com a própria vontade para então conseguir decidir. Brincar com liberdade plena para imaginar e criar para um dia vir a construir. Brincar imitando para aprender a aprender. Brincar com a fantasia para perceber que se é capaz de transformar. Brincar podendo arriscar sem medo para vir a sentir confiança. Brincar ganhando, perdendo e cooperando para saber conviver pacificamente. Brincar sentindo alegria, medo, frustração, felicidade, amor e ódio para um dia poder vir a perdoar. Brincar sempre, por toda a vida.

"Recordo ainda ... E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Algum brinquedo novo à minha porta....

Mas veio um vento de desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas aí,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai.

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino...acreditai...
Que envelheceu, um dia de repente!..."

Mário Quintana.




OBS: Este texto foi escrito a pedido do SESC Interlagos em 2001 e publicado na Internet pela primeira vez em 2004.